terça-feira, 21 de abril de 2009

Velocino de Ouro

Morrer talvez me fosse mais ameno
Por não poder mais ver-te na saudade
Mas sigo ainda vivo porque crendo
Que um dia hás de saber ser a verdade

Aquilo que te disse num aceno
E o mais que depois disso tenho escrito.
Pois se teu coração de setas crivo
Não é para parti-lo; quero-o pleno.

Mas eis que gostaria de abri-lo
Aos poucos, feito quem ao velocino
Desate laços, ache ouro dentro

Tesouro bem no centro escondido
(Visível só ao olho mais atento)
O brilho da tua alma é o que fito.

Jorge Cardozo
Hai Kai

Manhã. Chuva fina.
Abril; começo de frio.
Eu, você: saudade...

Jorge Cardozo

domingo, 1 de março de 2009

Novos Hai-kais


Verão. Cai a noite
Com conversa, com cerveja
Madrugada passa.


Vento vem veloz
Fecha a porta do verão
Traz trovões, traz chuva...

Beijo pingos límpidos
de chuva sobre você
- minh'alma lavada.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

HAIKAIS

Verão: tudo sobra
Apenas você me falta
As águas desabam.

A noite espalha-se
Cala-se todo outono
O rio flui.


Vento de outono
Embaralha os silêncios
Folhas suicidam.

Tempo de garoa
Manhã de neblinas grávida

Eu cego de ti.

Nuvens carregadas
Nenhum abraço no vento
Desbrilha o sol.


Começa verão
Quem da palavra precisa?

Troveja a tarde.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

ATA-ME

Se a festa só tem graça com você
se o mundo só tem festa com você
se no fundo, e no raso, nenhum acaso
é melhor que o encontro marcado
entre eu e você
se a vista não alcança o prazo
onde o preciso se torne exato
então por que não me ata
ou me mata de vez
em vez de fazer-me a falta
que faz e sempre me fez?

Jorge Cardozo

NADA

Sequência do nada:
nenhum abraço
ou beijo na boca
nenhuma declaração de falta.

Ciência do nada:
aprender a ser só
ficar só
moer as lembranças.

Conseqüência do nada:
dor didática
dor no diafragma
dor sem dialética
dor.

Consciência do nada:
não há sombra
porque não há sol
onde foi o amor?


Jorge Card
ozo

sábado, 7 de junho de 2008

TUA TAÇA

Somente a tua taça
Me morde lábios, embaça
A razão e faz escassa
A possível tua falta
Beijo de sopro e fumaça

Somente a tua taça
Me derrama mel e vinho
Reinventa o destino
Em seus múltiplos caminhos
Beijo de sopro e fumaça

Somente a tua taça
Me suga olhos, enlaça
O sem fim, o desmedido
E o medo que ronda a caça
Beijo de sopro e fumaça

Somente a tua taça
Espalha brasas no breu
E o vazio de ser eu
Se dissolve nesse teu
Beijo de sopro e fumaça

Somente a tua taça.


Jorge Cardozo